terça-feira, junho 16, 2009

Viagem & Conversa - Pão feito em casa

Tio Ângelo conta que, quando criança,  quem amassava o pão feito em casa, era meu avô, numa amassadeira de madeira, com duas abas laterais, feita pelo tio Benedito Berardinelli, marido da tia Esterina, irmã gêmea de minha avó.


Meu tio tinha 12 nos quando o pai, Giuseppe Pellicano, morreu de ataque cardíaco fulminante, aos 42 anos, numa madrugada de tempestade. Era outubro de 1935. Hoje está com 86 anos e guarda muitas boas recordações desse italiano de Civita, Calábria, que chegou, em Ouro Fino, homem feito, para encantar minha avó Venerina, com sua tez morena e olhos verdes faiscantes.

A massa pronta era coberta e colocada ao sol ou perto do fogão para crescer rapidamente. Era , então, separada em várias bolotas que eram cortadas superficialmente em formade cruz e submetia a uma nova espera por crescimento. Isso para que se abrissem um pouco e assassem de foma mais uniforme.

Os pães dos meus avós maternos cheiravam longe. Mal chegavam ao forno, já se podia ouvir das janelas comentários elogiosos, em voz bem alta e pidoncha, dos vizinhos. Os mais chegados eram até presenteados com alguns deles. Fazia-se várias fornadas de pães para que durassem a semana inteira.

Perguntei ao meu tio se, na década de 30, com tantas famílias italianas fazendo pão em casa, Ouro Fino já contava com padarias. Meu tio disse que sim, e as padarias também eram de famílias italianas. Havia também aqueles que faziam pães em casa, colocava-os em grandes cestas para vendê-los na rua. Os portugueses padeiros chegaram depois.

Uma das padarias de italianos ficava na Avenida Delfim Moreira, perto da casa de meus avós. Era de um tio da minha avó chamado João Ceccom. Na verdade, era um misto de padaria e mercearia, que existiu no mesmo lugar, até meus tempos de criança. Era ali que o pessoal da roça fazia compras do coisas básicas como querosene para lampiões e lamparinas. O que cheguei a ver. Aos sábados, depois de venderem o que produziam no mercado municipal, os roceiros amarravam seus cavalos selados ou puxadores de charretes, em frente a este comércio, para as compras da semana e também para se regalarem com uma boa pinga também servida às mulheres.

Na padaria dos Ceccons, quando meu tio era criança, vendia-se pão sovado, pão de bico e bolachão feito de farinha de trigo e rapadura. Não consegui nenhuma foto de pão de bico na internet. Mas vou explicar para quem não sabe. Dois rolos de massa são superpostos de forma cruzada. Assim, o pão em vez de duas tem quatro pontas.

Quando morávamos, na década de 50, em São Paulo, na Vila Prudente, um desses pães era suficiente para nós: meus pais, eu e minha irmã, Vera. À tardinha, buscávamos uma pão de bico no comércio da Dona Rosália, a espanhola sem filhos, que conversava o dia inteiro com um papagaio. Minha mãe fazia café fraquinho pra misturar ao nosso leite e cada uma de nós tinha o seu bico de pão quentinho com margarina derretendo. O quarto bico era guardado pro meu pai que só chegava à noite.

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