sexta-feira, setembro 11, 2009

Sofri, mas mesmo assim eu fui feliz

Era 1962 , depois de uma vida curta e boa em Arapongas, quis o destino, olha só o drama! que retornássemos a pequena casa de madeira, à casa inicial, quando ali chegamos em julho de 1958.

Meu pai havia perdido empregos que nos inseriam no melhor contexto araponguense e novamente partia, deixando para trás minha mãe sozinha com os filhos. Na primeira vez, quando mudamos de Ouro Fino para São Paulo, em 1955, éramos três, contando minha mãe.
Igreja Matriz de Arapongas- Paraná

Em 1958, quando já de volta a Ouro Fino, nos mudamos para Arapongas, éramos quatro. Naquele ano, meu pai nos deixou na casa da Vó Ina e se depediu dizendo que só teríamos notícias se conseguisse "vencer na vida", não importa o que isso significasse. Em 1962, quando sumiu de Arapongas pra botar comércio em Guaíra, lá onde o Paraná é mais quente, já éramos cinco.

Ficamos em Arapongas por nós mesmos. E coube a minha mãe se virar para dar de comer a todos, nos mandar (eu e Vera) limpas, de uniforme e material escolar às aulas. Isso, sem nenhum parente por perto
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Colégio onde fiz do primeiro ao terceiro ano primário

Havíamos vivido por um bom tempo na melhor casa das redondezas, de material como chamavam no Paraná, as feitas de tijolos e cimento, que se destacavam da quase totalidade, feitas de madeira, então abundante. Nesta casa, pela primeira vez meu pai tinha um escritório só pra ele, com uma linda escrivaninha antiga.

Nossa sala de visita, também pela primeira vez, teve sofás macios recobertos de tecido. Meu pai havia desenhado os móveis da sala de jantar que tinha até barzinho daqueles de pés de palito. Tudo foi feito por um marceneiro talentoso da cidade. Quando a mesa de jantar chegou, um tapete retangular estampado, dos mais lindos, a esperava.

Nessa linda casa, comemoramos pela primeira vez (1960/61) o Ano Novo, com bela mesa de comes e bebes. Mais para despedir da Vó Ina, que havia ficado conosco seis meses. Havia chegado para o nascimento de meu irmão caçula que já completara seis meses. Era hora de voltar para os outros filhos, lá em Ouro Fino.

Pois bem, com os revezes que a vida dá, estávamos de novo na casinha de madeira inicial e muitos móveis tiveram que ser vendidos para que cabêssemos lá novamente. Da primeira, vez não foi problema, chegamos só com a roupa do corpo e mais umas caixas com panelas e objetos de primeira necessidade. Quando chegamos, meu pai já havia comprado nossas camas, o bercinho pro meu irmão Dante, mesa pra cozinha e só.

Estranhamente, essa terceira partida para o mundo do meu pai foi um tempo bom para nós. A vida com ele estava tão difícil. Ficamos aliviados quando foi embora. Além disso, quando crianças o pior que podia nos acontecer, pelo menos eu pensava assim, era ficar sem mãe, não sem pai. Tenho certeza que, se meu pai tivesse ficado viúvo ainda jovem, teria nos depositado na casa de algum parente porque pra assuntos de cuidar de crianças era um verdadeiro fracasso.

Bem, naqueles tempos de isolamento absoluto da família, só não passamos fome porque tínhamos vizinhos generosos e minha mãe se virava com alguma costura. Além disso, precavida, como sempre, nunca dipensou uma boa horta e galinheiro em casa. Também resolveu comprar uma cabra grávida que acabou depois de algum tempo morrendo envenenada. Mas enquanto durou tínhamos leite todos os dias. Sem dinheiro, às vezes, para o pão, lanchávamos deliciosos mingaus que minha mãe incrementava com o que tinha em casa. Com gemas de ovos era amarelinho. Com um pouco de Toddy, ai que delícia! E se não houvesse maizena, era engrossado com farinha mesmo. Só demorava um pouco mais para cozinhar.

Quando a dispensa esvaziava era quando comíamos melhor. Minha mãe vazia milagres com restos de comida ou com a única banana da fruteira. Bolos salgados que eram assados em cima da chapa do fogão de lenha se não tinha gás. Farofa docinha de banana. Sempre de banhos tomados e roupas limpinhas quando era de tarde, rostinhos rosados, acho que nem os vizinhos que nos emprestavam aquela xícara de óleo ou açúcar, acreditavam na penúria que vivíamos.

2 comentários:

  1. Clara,lendo isto fico pensando como vc pode se lembrar tão bem de tudo, eu desta época não me lembro de muita coisa eu devia ter meus 12 ou 13 anos.Acho que já desde cedo vc era uma reporter.

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  2. perscrutadores da realidadade, a multiplicação das bananas, tomates, batatas,etc, etc e tal. È fruto da observancia, do risco, do frio calculado de Dona Elza...tolinhos...
    Era 1968, feira na praça do Bicalho.
    Última feira antes dos estoques serem renovados. Tomate maduro, banana madura...o feirante tinha que desovar seu estoque de produtos perecíveis. O palco do embate fora evidenciado. Dona Elza fria e calculista, disse-me, Dário vamos para a feira às onze horas da manhã. No final da feira dentre o ultimo horario da feira,no rescaldo da batalha...Dona Elza ensinara-me a perscrutar nas pontas dos meus dedos, um tomate viavel, dentre uma imensa pilha de podridão. Voltavamos com o carrinho de roda de madeira cheio. Com indisfarzavel orgulho de temos feito,grande negócio...

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