sábado, junho 13, 2009

Abristes os sete portões

que a casa avarandada protegiam
e os cachorros se aquietaram
submissos
à passagem dos fantasmas.

Aconteceste então
para que eu pudesse
dizer sim
a todos os medos dentro de mim
adormecidos
reconhecendo-me
fraca
criança e tola.

Andei pela casa toda
e eram mortos
os que amei.
Na sala
vazia de gente querida
a mesa posta
um jantar antigo
frio e intacto.

Acontecestes
para matar pequenas alegrias
o sorriso com que me recebiam
quando era de noite
e eu voltava para casa

para secar os vasos das flores
de todos os dias
para tirar a cor das cortinas
hoje inúteis
numa janela que ninguém debruça
para empoeirar a mobília da casa.

Hoje, apenas restos dos que amei
mãos, cabelos, sorrisos
tento lembrar, tento esquecer
exercício fugidio.

Calou-se, em mim, o badalar das horas
Sobrevivo ao inútil tique-taque dos segundos.


Junho de 1973

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