segunda-feira, junho 15, 2009

Cartas marcadas


Quando minha mãe era bem jovem, ficou quase noiva de um oficial de exército, engenheiro. Diz que terminou tudo quando soube que, casada, teria que se mudar, isso em 1946, para Manaus. Mesmo assim, antes dele ir embora de Ouro Fino (onde serviu durante a Segunda Grande Guerra e um pouco mais) para Belo Horizonte, deixou as alianças com ela, caso mudasse de idéia.

Não mudou. Na carta de rompimento definitivo, levada em mãos por um outro oficial amigo, minha mãe dizia que não aguentaria morar longe da família, principalmente longe da mãe. A carta levou junto as alianças com os nome dele e dela já gravados.

Terminado o quase noivado, minha mãe voltou a namorar meu pai, Dário, nascido e criado e Ouro Fino. Um namoro que vinha da meninice. Logo depois, uma cigana leu-lhe a mão e disse: "Não adiantou nada você terminar com o moço de fora. Com o moço da cidade você também fará muitas mudanças e cada vez mais pra longe da tua família."

E assim aconteceu. Primeiro moramos em Francisco Sá, bairro rural de Ouro Fino. Depois em três diferentes casas na cidade, antes de começar nossa saga por São Paulo, Paraná e Distrito Federal. Em todas as cidades moramos em várias casas. Foram onze mudanças ao todo, no espaço de 24 anos, do casamento deles em Ouro Fino até o apartamento da 104 sul. Uma média em torno de dois anos em cada moradia. Pensando bem, isso é muito louco, uma verdadeira sina.

Minha mãe sempre se lembrava da cigana. Acho que esta história de mudar bastante traumática. Perdemos nossas referências, demoramos a construir outras. Mesmo que a mudança seja apenas de casa. Por isso, acho que alguma coisa muito errada acontece comigo e minha irmã. Pensando bem, mais com ela porque, graças a Deus, já parei. Morarei nesta casa até que estiver bem de saúde e de idade não tão avançada. Mas minha irmã, que já tem uma bela casa de fazenda e um apartamento em Araguari, cidade natal do marido, ainda não sossegou. Ainda não achou onde aquietar coração e mente, aqui em Brasília.

Um comentário:

  1. Esse noivado com o tal do oficial explicaria uma conversa comprida que meu pai teve comigo alguns anos depois da morte da nossa mãe. Diz ele que durante a minha formatura no exército, em 18 de dezembro de 1976, ele e ela estavam no palanque dos convidados. Então, um soldadinho,conforme essas mesmas palavras, ao tocar sua corneta para os devidos comandos para evolução da tropa de formandos, a todo momento olhava pra ela. Como que pedindo seu consentimento. E ela, educadamente acenava com a cabeça, pra que ele desse prosseguimento ao seu ato litúrgico. O Pai não entrou em detalhes sobre esse noivo que ela teve. Mas descreveu com todas as palavras, seus ciúmes e mágoas desse dia de formatura. E ainda segundo ele, resolveu deixar pra lá e não criar confusão, pois ele tinha certeza que os pensamentos dela estavam perdidos naquele tempo remoto. Mágoas, mágoas, ele tinha aos borbotões.

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