O último tango em Paris, como todos os filmes intimistas de Bertolucci, é uma tentativa de se falar abertamente sobre coisas que a sociedade prefere ver trancadas a sete chaves. Dois desconhecidos encontram-se num apartamento vazio e, sem dizerem os nomes, conversam, transam, brigam e procuram um sentido para suas vidas. Ele (Marlon Brando, em atuação digna de 20 Oscars) está em crise porque a mulher acaba de cometer suicídio, sem deixar qualquer explicação. Ela (Maria Schneider, limitada, mas convincente) está em crise porque não sabe se o futuro que deseja para si é um casamento com um jovem cineasta. Para ele, o mundo acabou; para ela, está começando. Para ele, as coisas perderam o sentido; para ela, os sentidos ainda são muito complicados. Entre estes dois seres tão diferentes, há apenas uma ponte: o sexo.
As cenas "polêmicas" filmadas por Bertolucci, bastante explícitas para a época, são fundamentais para que o espectador compreenda o tipo de relacionamento possível para aquele casal tão improvável. E poucos lembram o que Marlon Brando fala durante a cena da manteiga: "Vou falar-lhe de segredos de famíla, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo." É como se um professor, que não acreditasse mais em nada do que ensinou a vida inteira, tentasse dar uma última aula - verdadeira, desesperada e muito dolorida. E à aluna, subjugada, só restasse perder toda a inocência. Inocentes podem ser felizes, é claro, mas não em filmes como este. Inocentes têm nome, sobrenome, RG, CPF e família constituída. Os personagens de O último tango não têm nem nomes um para o outro.
A cena em que Brando fala com o cadáver de sua esposa no velório, alternando momentos de raiva, desorientação e, finalmente, terrível reconciliação consigo mesmo, merece estar em qualquer antologia dos grandes momentos da arte interpretativa deste século. Ele também foi gigante em "O poderoso chefão" e "Apocalypse now", mas aqui sua força nasce das entranhas de um personagem esmagado, sem qualquer glamour ou simpatia. . Do roteiro à montagem, passando pelos eficientes movimentos de câmara (marca registrada de Bertolucci) e pela trilha - pop mas sempre dramática - tudo está a serviço de uma visão de mundo sombria, mas assustadoramente realista. Bertolucci voltaria ao tema em outra obra-prima - O céu que nos protege - igualmente impactante, mas desta vez rodado em grandes espaços, em vez de confinado às quatro paredes de um apartamento vazio. E, pensando bem, que diferença faz? Onde quer que esteja, com quem quer que ande, com o sol abrasador ou uma lua gelada sobre a cabeça, o homem é um solitário à procura dele mesmo, sussurrando e clamando por um sentido para todos os absurdos que encontra pelo caminho. Bertolucci, capaz de contar histórias monumentais e pintar afrescos políticos, como "O último imperador" e "1900", sabe que estes sussurros e estes clamores solitários ainda são a melhor matéria-prima para o bom cinema.
O texto acima é de Carlos Gerbase,jornalista, roteirista e diretor, disponível em www.terra.com.br
Em entrevista recente, Bertolucci disse que depois das filmagens de O último tango a relação entre ele e Brando estava tão à flor da pele que ficaram décadas sem se verem. Reencontraram-se em Los Angeles, e nenhum dos dois trocaram palavra sobre o filme, realizado em 1972. Na madriugada de hoje, revendo-o, só percebia que o filme tem exatamente 37 anos pelos modelos dos poucos carros que aparecem nas imediações (Passy) do edifício com o apartamento cenário para o filme.
Era lindo demais esse Marlon Brando! Eita ferro!!!
ResponderExcluirEra lindo demais esse Marlon Brando! Eita ferro!!!
ResponderExcluirEste Marlon Brando!!!!!
ResponderExcluirLindo demais!
Galã da minha juventude....
Bons tempos.