domingo, maio 24, 2009

Viagem & Conversa - Herança

Quando meu avô Dante morreu, em 1974, Vó Quinha veio morar com a filha, a tia Lourdes em Brasília. Pelo que me lembro, nem a deixaram despedir direito da casa, onde havia morado décadas. Aos 72 anos, estava bem frágil de saúde e não teria condições de morar sozinha. Era magrinha, tinha asma que havia se agravado pelo fumo, vício que adquirira na infância. Segundo ela, os pais ensinavam os filhos a fumarem. Os antigos tinham hábito até de mascar fumo, daqueles de rolo, para alivar dores de dente.
Minha avó mesmo distribui as poucas coisas da casa que vivera com o marido e filhos. . O mobiliário de sua casa era o de um mosteiro. Camas, mesas e bancos rústicos. De luxo apenas, um daqueles conjuntos de jarro d'água e bacia, de louça colorida, usada nos tempos idos para se lavar mãos e rostos ao chegar em casa da rua. Com o advento da água encanada, essas vasilhas viraram enfeites, geralmente expostos em uma cantoneira, tendo por baixo uma toalha de crochê. Era assim na casa dos meus avós.

Meu pai fora levado ao enterro de carro pelo meu tio Hildebrando e um amigo dele. E, na volta, já trouxe a parte que lhe cabia: uma coleção de Seleções antigas, muitas de antes da Segunda Grande Guerra; livros que meu avô lia e relia, O Manto Sagrado, Reis dos Reis; dois pratos de cerâmica com cenas numa taberna. Um deles está na minha parede. O outro precisa ser restaurado.
Também trouxe um grande fogareiro usado por meu avô para fritar pastéis, quando trabalhava no Bar do Paulo Cleff. Um pente imitando marfim. Uma navalha. Um relógio de bolso com corrente. E um serrote.
Foi, então, que lendo seleções antigas que comecei a ter aulas de redação. Os textos eram deliciosos de se ler. E uma das seções que eu mais gostava era "Meu tipo inesquecível", onde alguém lembrava-se daquela pessoa especial, parente ou não, que havia feito diferença na sua vida. Meu avô certamente fez diferença na minha.

Foi na casa dele que ainda muito pequena já "lia" jornais e revistas encantando-me com suas fotos e ilustrações. Aliás esta mania de estar por dentro das coisas é mesmo de família. A foto mais linda do meu bisavô é uma dele, no Brás, São Paulo, com o filho Aspreno, sentado num banco de jardim, e um jornal aberto nas mãos. Quando se mudou para Ouro Fino, continuou recebendo os jornais do dia, que chegavam no trem que saía de madrugada de São Paulo, para chegar pon-tu-al-men-te entre onze da manhã e três horas da tarde.

2 comentários:

  1. Clara Lúcia, você levou-me de volta ao passado, o meu tempo de criança na casa de nossa Vó Quinha(quanta saudade!), lembro-me perfeitamente desses pratos. O conjundo de bacia e jarro d'água está na casa da Marilis, presente da tia Lourdes(acho que com medo de quebrar na viagem de mudança).Sempre foi muito bem cuidado por ela e agora pelo Tony e a Andréa...

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  2. Clara! Eu também amava ler "Meu Tipo Inesquecível"
    Mamãe tinha montanhas de Seleçoes!
    Mais uma vez vc me fez 'viajar' no tempo.

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