Não era assim tão tarde quando minha amiga Helô me ligou pra avisar que Chico Pontes havia morrido, na sexta-feira, 15. Não sei se foi o jeito dela me dizer... assim me preparando... Confesso, não senti o mundo fugir sob meus pés ou o sangue gelar nas veias no momento e nem depois.De baixo das marquises
nem tristes, nem felizes...
vendo a vida passar.
Não há nada pra ser feito,
está tudo tão direito!
Mas agora me confesso abalada. Não pela morte em si. Ele viveu 74 anos. Vida que pode não ter sido longuíssima, mas chegar, mesmo nos dias de hoje, a tal idade, não me parece trivial. É que há tempos vinha pensando em lhe telefonar.
No segundo semestre do ano passado, com a ajuda da amiguinha (porque jovem) Lia Sahadi, transcrevi todas as aulas que Chico nos deu, quando professor da Oficina Básica de Teatro e Dança, na Universidade de Brasília, em 1976. Gostaria de ter lhe dito que estava empenhada em tal trabalho, de reconstruir, dando a devida importância, o tempo que passamos juntos, ele professor, eu aluna. Nossa diferença de idade era de 15 anos. E nosso diálogo só funcionava em sala de aula.
Ao reler as anotações cuidadosas que fiz, fica claro minha paixão pelo conhecimento que ele tinha e transmitia, em meio a tantas incompreensões. O curso foi uma queda de braço do começo ao fim. Ele queria sutilezas, fugir do maniqueísmo político vigente à época. A maioria dos alunos já se considerava atores e mesmo diretores e queria fazer manifestos no palco.
Bem não conseguiram vencer o Chico pelo cansaço. Eu poderia dizer que fui amiga do Chigo. Não fui. Apenas admiradora, fã, seguidora, sei lá, durante um certo tempo da minha juventude. Fui à Fortaleza várias vezes. Na maioria me esqueci que morava lá. Quando me lembrei, não senti vontade de encontrá-lo.
Mas nunca descartei meus cadernos de anotações. Fiz outras duas matérias com ele no Curso de Comunicação da UnB. O Chico professor pouca gente conheceu. Muitos que dizem tê-lo conhecido em tal personagem nunca lhe prestaram atenção ou até lhe respondiam com desrespeito e escárnio.
Ele realmente foi uma pessoa controversa. Adorava dar uma desestabilizada na conversa que corria solta. Muitos se sentiram ofendidos e até agredidos. Era difícil para mim, jovem, tímida e tola, ter uma relação mais próxima com ele. Sempre tinha perto de mim alguém chateado com o Chico, devido a uma situação específica em bares, teatros, cinemas, ruas... Ele dizia que não passava a mão na cabeça de amigos. Mas, reconheçamos, é difícil se estar com alguém que o tempo todo nos coloca ou coloca quem está conosco na berlinda. Cansa!
A primeira vez que Chico esteve em casa, foi como amigo do Clodo, no meu aniversário, em janeiro de 1974. Eu fazia 24 anos. Minha mãe preparou uma festinha surpresa para mim e convidou meus amigos. Ele foi sem ser convidado. Foi porque meus amigos, que era também a turma dele, foram. Quando foi embora minha mãe disse: "Este homem é muito velho para andar com vocês!" Eu concordei: ele era velho demais...
No meu caderno de anotações viverá para sempre o filósofo, o que pensava o mundo e como é estarmos nele. O que aprendi e apreendi com ele iluminou minha vida profissional, meu jeito de ser neste mundo porque naquele tempo eu era jovem e sabia bem pouco. Ele sabia mais. Aprendi. Então, a parte que vivi com ele fora da Universidade, na cozinha da casa da Valéria, no Beirute, na casa da mãe do Clodo, para mim é pouco relevante porque havia muitos ruídos em volta. O que guardo para sempre é o Chico, o professor meu, da Bia Abreu e da Gioconda Caputo, na UnB. Para nosso professor, nunca direi adeus!!!
sou filha do seu querido professor e ficaria eternamente grata se você me mandasse suas preciosas anotações.
ResponderExcluirpara meu pai eu também jamais direi adeus
isadorapontes@gmail.com